10ª Cúpula da CELAC: uma resposta latino-americana às crises globais
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O que a América Latina e o Caribe podem ensinar ao mundo sobre a paz e as cooperações regionais?
Em 21 de março de 2026, ocorreu a 10ª Cúpula de Chefes de Estados e de Governo da Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe (CELAC), na cidade de Bogotá, capital da Colômbia. Diante da eclosão de conflitos ao redor do globo, o evento teve como objetivo reafirmar os compromissos dos governos participantes em relação à paz e às integrações regionais – tanto internamente, entre os próprios membros da CELAC, quanto externamente, entre a Comunidade e outros países, blocos econômicos ou organizações regionais –, bem como evidenciar a soberania da América Latina e do Caribe, posicioná-los em destaque na agenda global e discutir soluções para adversidades ao desenvolvimento pleno das regiões em questão.
Fundada no México em 2010, a CELAC é composta por todos os Estados latino-americanos e pelo Caribe e consiste em um fórum intergovernamental no qual os membros desenvolvem programas de cooperação e integração regional em áreas como educação, desarmamento nuclear, energia e meio ambiente, através do diálogo e do consenso e partindo da harmonia entre interesses Estatais próprios e valores compartilhados. Além de materializar soluções para problemas contemporâneos através de políticas efetivas, o grupo tem como objetivo internacionalizar os interesses de seus membros, de modo a pôr em foco suas necessidades para o resto do mundo.

Nesse cenário, a CELAC promoveu no sábado do dia 21 de março de 2026 a sua 10ª Cúpula, durante a qual foi aprovada a Declaração de Bogotá. O documento reitera a posição dos países membros sobre os deveres propostos pela Carta das Nações Unidas – que envolvem a manutenção da paz, a promoção de relações diplomáticas entre nações, a defesa da cooperação internacional e a proteção aos direitos humanos – e propõe soluções cooperativas para o enfrentamento de adversidades comuns a todos os membros.
Composto por 35 termos, o manuscrito introduz princípios que descrevem a América Latina e o Caribe como uma “Zona de Paz” e livre de armas nucleares, o que reafirma a posição pacifista da comunidade e a defesa da não-agressão. Nesse sentido, é válido destacar que todas as ações descritas na Declaração realizam-se de acordo com os marcos jurídicos dos Estados e do Direito Internacional, evidenciando a horizontalidade da CELAC e o compromisso com as jurisdições de todos os seus membros.
A Declaração de Bogotá expressa apoio consensual à autodeterminação dos povos latino-americanos e caribenhos, tendo como base o respeito às soberanias nacionais e o princípio da igualdade entre elas. O documento revela essa posição, dentre outras formas, ao propor que o cargo de Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas seja ocupado por um representante proveniente de um dos países integrantes da CELAC, justificando que esse acontecimento representará o respeito da ONU ao multilateralismo no que se refere a uma “representação mais equitativa de todas regiões do mundo”. Dessa maneira, o documento insiste no compromisso de edificar as relações interestatais a partir de uma cooperação efetiva e que gera benefícios mútuos.
É conferido destaque à necessidade de cooperação em termos de migração, a fim de tornar o fenômeno em uma movimentação regular, segura e ordenada de pessoas, a partir do entendimento das competências de cada nação e do respeito aos direitos humanos. Também é citado o combate às organizações criminosas transnacionais, sob a ótica de que sua expansão se traduz no estímulo à violência e à consequente manutenção do estado de subdesenvolvimento nos países em que esse fenômeno persiste.
No âmbito climático, são apresentadas medidas que visam impedir o avanço da crise iminente. Os efeitos do colapso, que incluem desde o aumento da temperatura geral até a retração do crescimento socioeconômico, afetam em particular os pequenos Estados insulares em desenvolvimento, e por isso devem ser combatidos em união e solidariedade, visando o bem-estar coletivo e a evolução homogênea dos Estados em questão. O documento também sustenta “a disposição dos países da região em avançar no processo de integração energética regional”, com o objetivo primordial de promover uma transição energética baseada no desenvolvimento de fontes renováveis e na expansão da infraestrutura correlata, bem como assegurar a implementação efetiva dos compromissos climáticos na América Latina e no Caribe.
Por fim, e forma menos expressa, o documento também abordou a importância da promoção plena do ensino superior – compreendido como “ferramenta para o desenvolvimento do capital humano” – e o compromisso de assegurar a implementação do Plano de Autossuficiência Sanitária da CELAC como pilar estratégico para o fortalecimento de capacidades locais, promovendo a produção e distribuição de insumos e tecnologias em saúde, a transferência de conhecimento e o estímulo à inovação tecnológica.
Em vista da crescente ocorrência de conflitos armados, a CELAC e suas iniciativas – como a cimeira em questão – revelam a necessidade global de organizações e grupos interestatais que busquem a cooperação internacional, a proteção de direitos e a resolução pacífica de conflitos, instrumentalizando o diálogo e a diplomacia como formas de superar empecilhos contemporâneos persistentes.
Nesse contexto, o Brasil tem participado de todas as reuniões de alto nível da comunidade, que inclui as conferências de Buenos Aires (2023), Kingstown (2024) e Tegucigalpa (2025), as duas Cúpulas CELAC-UE em Bruxelas e Santa Marta (2023 e 2025), e o Fórum CELAC-China em Pequim (2025), o que demonstra o alinhamento do governo brasileiro com a agenda de integração regional e com a construção de um espaço político autônomo para a América Latina e o Caribe.
O discurso do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, lido pelo chanceler Mauro Vieira, deu ênfase à questão dos minerais raros brasileiros. Lula destaca que os minerais críticos são estratégicos para o Brasil e que o país precisa de uma melhor organização para aproveitar esse potencial. Ele defende uma atuação mais coordenada do governo e atenção às pressões externas, reforçando a importância de proteger esses recursos como parte da soberania nacional. Ao mesmo tempo, reconhece que o Brasil ainda precisa avançar para transformar suas riquezas em maior protagonismo internacional
Outro momento impactante da reunião foi o discurso do Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, que usou o espaço para denunciar abertamente as pressões econômicas e militares exercidas pelos Estados Unidos sobre seu país. Com uma fala repleta de tom histórico e político, o chanceler reiterou a posição cubana de resistência e questionou o que chamou de “dominação neocolonial”. Segundo o representante, o país enfrenta um bloqueio que teria sido agravado a níveis extremos; Como exemplo mais recente dessa intensificação, ele menciona a Ordem Executiva, do Presidente dos Estados Unidos, de 29 de janeiro, e a implementação de um severo cerco energético, cujos efeitos acarretaria sérias implicações humanitárias para a população cubana.
O ministro ressaltou que, apesar de décadas de guerra econômica movida por Washington, Cuba resistiu por meio da unidade do seu povo, do investimento em energia fotovoltaica e de um programa próprio de transformação econômica. Rodríguez Parrilla também criticou com dureza as ameaças militares mais recentes vindas dos EUA, afirmando que “os Estados Unidos declaram publicamente quase diariamente suas intenções de atacar militarmente Cuba ou de conseguir, por meio de coerção, a derrubada do governo cubano”. Para o ministro cubano, tal postura representa não apenas uma ameaça a Cuba, mas a toda a região, e só poderia ser enfrentada com a unidade dos povos latino-americanos e caribenhos.
Ao concluir, o ministro convocou os países presentes a defender a CELAC como alternativa às “agendas elitistas subordinadas a interesses externos de dominação neocolonial”, e reafirmou que Cuba não renunciaria à implementação da Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, uma das conquistas mais simbólicas do grupo.
“Os países […] reiteram a necessidade de pôr fim ao embargo econômico, comercial e financeiro imposto contra Cuba”
Termo 7 da Declaração de Bogotá, 2026.
A cúpula também contou com uma mensagem do presidente da China Xi Jinping, enviada aos líderes participantes da cimeira em Bogotá. No comunicado, ele destacou o compromisso da China com a América Latina e o Caribe, reforçando que Pequim sempre será “uma boa amiga e parceira dos países da região”, disposta a apoiá-los na defesa de sua soberania, segurança e desenvolvimento.
O líder chinês também fez referência aos avanços do Fórum China-CELAC, cuja quarta reunião ministerial foi realizada em Pequim em maio de 2025. Nessa ocasião, a China e países latino-americanos lançaram em conjunto cinco programas de cooperação nas áreas de solidariedade, desenvolvimento, civilização, paz e conectividade entre povos. Segundo Xi Jinping, o trabalho conjunto ao longo do último ano resultou em benefícios concretos para as populações de ambos os lados. A mensagem destacou, ainda, a disposição de Pequim em trabalhar com a região para defender a justiça e a equidade internacionais, com vistas a construir uma comunidade com futuro compartilhado.
Ademais, a 10ª Cimeira da CELAC ocorreu em um momento de clara disputa geopolítica pelo alinhamento dos países latino-americanos. Poucos dias antes, em 7 de março de 2026, o presidente norte-americano Donald Trump havia lançado o chamado “Escudo das Américas”: uma coalizão militar composta por 17 países que visa combater o narcotráfico, os cartéis e a imigração ilegal, além de conter a influência da China e da Rússia no hemisfério. A conferência foi organizada em Doral, na Flórida, e reuniu 12 líderes conservadores da região, entre eles representantes de Argentina, Chile, El Salvador, Equador e Paraguai. Ao passo que a CELAC reúne todos os 33 países da América Latina e do Caribe – excluindo, portanto, a participação dos Estados Unidos e do Canadá –, e opera com base no consenso, no princípio da não intervenção e no respeito à soberania dos Estados, o Escudo das Américas foi estruturado em torno da liderança norte-americana e conta com cláusulas que, segundo analistas, abrem brechas para intervenções militares diretas nos territórios dos países signatários.
O Secretário de Estado americano Marco Rubio deixou claro que a parceria com Washington precisa de “reciprocidade”, ou seja, para ter acesso ao mercado e à proteção dos EUA, os países precisam limitar sua aproximação com a China e adotar a lista de adversários definida por Washington. Brasil, México e Colômbia não participaram do Escudo das Américas, representando a resistência da esquerda latino-americana à tentativa de hegemonia norte-americana.
Como anteriormente expresso, a Declaração de Bogotá apresenta termos (especificamente os pontos 16 e 18) sobre o combate à expansão de organizações criminosas transnacionais, ação possivelmente comparável aos objetivos do Escudo das Américas. Ainda assim, nota-se que a CELAC representa as ações ilícitas como ameaça direta “à segurança dos cidadãos, à saúde pública, à estabilidade democrática, à paz regional e ao desenvolvimento socioeconômico”. A disparidade entre esse documento e a iniciativa estadunidense, sob essa ótica, traduz-se no fato de que o Escudo é um instrumento de coerção que mira interesses próprios e o alcance da hegemonia, enquanto a Declaração descreve atos cooperativos que beneficiam a todos os participantes de modo democrático.
Ainda nesse sentido, o chanceler cubano criticou, em seu discurso em Bogotá, o arranjo norte-americano, afirmando que a CELAC tem dever de proteger seus membros e as Nações Unidas contra “construções ideológicas e ditatoriais” – tais quais o Escudo, visto por ele como forma de subordinar outros Estados às aspirações da América do Norte.
O contraste entre os dois projetos mostra uma tensão que de um lado é composta pela tentativa dos EUA de reafirmar sua hegemonia no hemisfério ocidental por meio de alianças militares com países ideologicamente alinhados – o que alguns analistas já chamam de “Doutrina Donroe”, ao fazer alusão à antiga Doutrina Monroe de 1823. Do outro lado, é apresentada a aposta da CELAC por um modelo de integração baseado no diálogo, na diversidade política e na autonomia regional. Em um contexto de bipolarização crescente, a Declaração de Bogotá reiterou que parte significativa da América Latina segue comprometida com o caminho mais plenamente democrático.
Mariana Canuto e Maria Clara Gueiros.

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