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A Doutrina "Donroe"

  • 11 de fev.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 8 de mar.


O recente ataque realizado pelos Estados Unidos da América (EUA) à Venezuela no dia 03 de janeiro de 2026, que resultou na deposição de Maduro do cargo presidencial, já vinha sendo previamente sinalizado pelas pressões recorrentes e pela insatisfação clara de Washington com o seu governo.

A postura unilateral e de inimizade dos Estados Unidos em relação à Venezuela ficou evidente por meio do discurso constante de deslegitimação. O governo estadunidense contestou publicamente os resultados das eleições presidenciais venezuelanas, recusou-se a reconhecer Nicolás Maduro como o presidente legítimo – chegando a afirmar que se trata de “um governante ilegítimo que brutaliza seu povo” – e exigiu a convocação de novas eleições.

Nesse mesmo contexto, Trump lançou uma narrativa criminalizante, acusando Maduro de alianças com cartéis de drogas, e o responsabilizou pelo envio de toneladas de cocaína, fentanil e outros entorpecentes para o território estadunidense. O presidente norte-americano intensificou seu posicionamento ao definir o fentanil como uma “arma de destruição em massa”, enquadrando, dessa forma, o combate ao tráfico não apenas como emergência de saúde pública, mas como uma questão de segurança nacional.

Juntamente a isso, houve ações militares diretas contra embarcações venezuelanas e seus tripulantes, com a justificativa de combater o transporte de drogas. O ataque ocorrido no dia 2 de setembro no mar do Caribe tornou-se emblemático, pois, após a primeira explosão da embarcação, os EUA ordenaram um segundo ataque depois da notícia de que havia dois sobreviventes. A Casa Branca defendeu-se das acusações afirmando que “o Almirante Bradley agiu corretamente dentro de sua autoridade e da lei”, todavia, essas ações levantaram questionamentos se tal decisão seria realmente condizente com as normas internacionais.

Apresentada como uma ação de defesa nacional e de combate ao tráfico, na madrugada do dia 03 de janeiro 2026, a operação militar dos EUA, nomeada de Operation Absolute Resolve, resultou na captura de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores. Ambos foram levados à Nova York e estão sob custódia do governo norte-americano até o fim dos processos legais pelas acusações de liderarem um governo ilegítimo que apoiava os cartéis de drogas e promovia o tráfico de toneladas de substâncias ilícitas.

A operação, todavia, não foi pacífica e culminou no bombardeamento da capital venezuelana, Caracas, e no uso de cerca de 150 aeronaves para suprimir qualquer tentativa de defesa. O objetivo foi concluído sem perdas estadunidenses, entretanto deixou uma série de fatalidades no país latino. O presidente colombiano, Gustavo Petro, declarou sua insatisfação em relação ao comportamento de Donald Trump: “Ao bombardear [a Venezuela], assassinaram uma mãe colombiana […] Sob tuas ordens internacionalmente ilegais, assassinaram uma inocente mãe colombiana, caribenha, cheia de sonhos.”

O julgamento de Maduro e sua esposa iniciou em 5 de janeiro e teve como embasamento uma denúncia de 25 páginas formalizando as alegações de narcotráfico, tráfico de armas e narcoterrorismo, o qual havia sido divulgado no dia seguinte à operação, em 4 de janeiro, pelo sistema de justiça criminal dos Estados Unidos. Durante a primeira audiência no Tribunal de Nova York, ambos alegaram serem inocentes e estarem sendo detidos como prisioneiros de guerra, no entanto o argumento foi rejeitado pela corte e eles enfrentam a possibilidade da condenação perpétua.

Enquanto o processo legal segue em Nova York, o mundo divide sua opinião a respeito das medidas drásticas tomadas pelo governo estadunidense. A legalidade da operação foi questionada pela maioria dos países da América Latina, assim como no próprio Conselho de Segurança da ONU, onde vários países, incluindo aliados dos EUA, afirmaram que a ação fere o Direito Internacional e a soberania do Estado venezuelano. “Nenhum Estado deve ameaçar ou usar a força contra a integridade territorial ou a independência política de outro Estado”, condenou a porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.

Especialistas em direito internacional, como Matthew C. Waxman do CFR, afirmam que a ação viola a Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra outro Estado sem autorização do Conselho ou em legítima defesa – argumento que Washington não demonstrou satisfazer. Por outro lado, há declarações de apoiadores como o presidente argentino Javier Milei, que afirmou que a queda do governo de Maduro foi uma “excelente notícia para o mundo livre”.

A reação popular, por sua vez, apesar de dividida, converge no receio e na incerteza do que o futuro lhes aguarda. A crise humanitária que assolava o país obrigou milhares de cidadãos a recorrerem à migração, porém a declaração de Donald Trump de que o país agora se encontra sob tutela estadunidense até que esteja pronto para a transição democrática põe em dúvida se a situação humanitária melhorará. A incerteza existe, pois há um objetivo econômico explícito na ação, as reservas petrolíferas estadunidenses. Trump deixou clara suas intenções e já anunciou que os EUA ficarão com o petróleo venezuelano.

Além de seus objetivos econômicos imediatos, a operação Absolute Resolve deve ser compreendida como parte de um movimento mais amplo de reorientação estratégica da política externa dos Estados Unidos. A ação militar na Venezuela exemplifica, de forma concreta, a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana durante a administração de Donald Trump, divulgada pela Casa Branca em 5 de dezembro de 2025.

O documento consolida o “América Primeiro” como princípio orientador da política externa e de segurança dos Estados Unidos, redefinindo prioridades geográficas e deslocando o foco dos interesses geopolíticos estadunidenses para o Hemisfério Ocidental, em especial a América Latina e o Caribe. Neste enquadramento, a região deixa de ser tratada como espaço secundário e passa a ser concebida como área estratégica indispensável para a segurança, a prosperidade econômica e a projeção global de poder dos Estados Unidos.

Essa não é a primeira vez que uma política dos Estados Unidos objetiva reaproximar-se da América Latina e do Caribe. Em um contexto ainda predominantemente colonial, em 1823, o presidente estadunidense James Monroe estabeleceu a Doutrina Monroe para que as potências europeias respeitassem a esfera de influência dos Estados Unidos na região, política externa frequentemente referenciada como: “América para os americanos.”

No contexto atual, contudo, seu alvo desloca-se: a contenção já não se dirige à Europa, mas à alegada crescente atuação de países como China e Rússia em setores estratégicos da América Latina, incluindo energia, infraestrutura, tecnologia e cooperação militar.

De acordo com a Estratégia de Segurança Nacional, “após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave em toda a região”. Ainda segundo o documento, a hegemonia é a própria condição para manter os Estados Unidos seguro e próspero. Isso seria feito com a aplicação do Efeito Trump sobre a Doutrina Monroe, partindo de duas estratégias centrais: alistar e expandir.

O governo de Nicolás Maduro foi marcado por um alinhamento ideológico a potências rivais dos Estados Unidos, como China e Rússia. Para além disso, as acusações que o governo estadunidense formalizou ao Tribunal de Nova York se encaixam nos alertas apontados no documento, como a contenção de fluxos migratórios, tráfico de drogas e redes criminosas transnacionais. Um dos meios apontados para tanto foram as parcerias de segurança, postas em prática com a presença ampliada de ativos navais no Caribe, criando um ambiente de pressão contínua sobre a Venezuela antes mesmo do ataque de 03 de janeiro.

Uma das políticas para a expansão que os Estados Unidos buscam na América Latina é o desenvolvimento de recursos estratégicos. Sendo a maior detentora de reservas petrolíferas do mundo, a Venezuela ocupa posição central na estratégia estadunidense, uma vez que o petróleo venezuelano é visto pelo governo de Trump como um ativo estratégico subutilizado e vulnerável à influência de potências extrarregionais. A captura do Estado venezuelano abre caminho para a reorganização do setor energético sob supervisão norte-americana, alinhando exploração, comercialização e infraestrutura aos interesses dos EUA.

Pouco depois da operação, no dia 07 de janeiro, o Secretário de Energia, Chris Wright, afirmou que Washington supervisionará a venda do petróleo venezuelano 'indefinidamente', indicando que os interesses estratégicos vão além da retórica democrática. Ainda assim, há um receio por parte dos investidores de empresas como a ExxonMobil, a qual declarou que a Venezuela é um país "que não pode ser investido" nas condições atuais. Contudo, o presidente estadunidense está disposto a oferecer respaldos no setor, apesar de não ter detalhado como, e declarou que já foram enviados cerca de 30 milhões de barris para os EUA, deixando, assim, evidente o seu interesse nas reservas petrolíferas presentes na fronteira venezuelana.

O Efeito Trump sobre a Doutrina Monroe, apesar de ter a mesma retórica de exclusão de potências extrarregionais e preservação da zona de influência estadunidense na América Latina e no Caribe, se aproxima de uma lógica de hegemonia ativa, marcada pela disposição de intervir, pressionar e condicionar a soberania de Estados latino-americanos. Nesse cenário, emerge a pergunta: a intervenção dos EUA na Venezuela está, de fato, em conformidade com a Doutrina Monroe? A captura de autoridades estatais, a ameaça da força e o uso explícito da força, sanções de caráter extraterritorial e estratégias de mudança de regime extrapolam o direito internacional concebido no século XX, à luz de instituições internacionais e multilateralismo.

Não é por acaso que muitos analistas de política internacional chamam a nova Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump de «Doutrina Donroe», promovendo uma atualização agressiva e personalista do que James Monroe propõe. Isso contribui para voltar a colocar a América Latina como um espaço vulnerável à interferência externa, onde as disputas geopolíticas globais se sobrepõem à soberania regional.


Escrito por: Anna Wiendl e Evelin Mwanyika


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Equipe:
Coordenador e Editor do Projeto:

Dr. Ielbo M. Lobo de Souza

Alunos participantes:

Aline Simioli Campos

Anna Paula Wiendl

Evelin A. Mwanyika

Felipe Ribeiro Silva

Guilherme M. Cucco

João Lucas Pereira

Maria Clara Gueiros L. Fidelis

Mariana Sofia R. Canuto

Mariana Tanouss de M. Moreira

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