A intervenção norte-americana na Venezuela e as Relações Diplomáticas Regionais
- 13 de mar.
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de mar.

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, forças norte-americanas capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação que chocou a comunidade internacional e reacendeu o debate sobre os limites do direito internacional na era Trump. Nas horas e dias seguintes, dois mundos responderam de formas radicalmente distintas: as bolsas de valores de Nova York celebraram com altas expressivas nas ações petrolíferas, enquanto chancelarias ao redor do globo ensaiavam protestos cuidadosamente calibrados para não causar maiores danos à relação bilateral com os Estados Unidos. O episódio ilumina, com clareza brutal, a distância entre os princípios que regem o discurso diplomático e os instrumentos — ou a falta deles — disponíveis para fazê-los valer. No dia 04/01/26, os governos brasileiro, chileno, colombiano, mexicano, uruguaio e espanhol fizeram uma declaração conjunta sobre os fatos ocorridos na Venezuela. Neste comunicado, as nações reafirmaram sua dedicação aos princípios consagrados das Nações Unidas: igualdade soberana, solução pacífica de controvérsias, proibição do uso da força, autodeterminação dos povos, não intervenção, direitos humanos e boa-fé. No início do texto, eles explicitam o seu repúdio quanto ao ataque unilateral que a Venezuela sofreu, e expressam preocupação diante do rompimento com princípios fundamentais do Direito Internacional e a paz do sistema mundial após as ações estadunidenses. Eles reiteraram a necessidade de agir com cautela e de acordo com os princípios da ONU — os quais todos os países membros das Nações Unidas aceitaram ao assinar a Carta da ONU — e do Direito Internacional, além de afirmarem que os venezuelanos deveriam fazer esse processo de reestruturação política, levando em conta a soberania e a autodeterminação, para chegarem a uma solução sustentável que respeite os direitos humanos. Posteriormente, eles reafirmaram o caráter pacífico da América Latina e a unidade regional face a qualquer ação que ponha em risco a estabilidade regional. Para finalizar a declaração, eles manifestaram oposição a qualquer tentativa de controle regional, político, administrativo ou apropriação de recursos naturais ou estratégicos.
Esse comunicado não é algo inesperado da diplomacia brasileira, visto que ela sempre demonstrou um caráter pacífico, defendendo a negociação e resolução pacífica de conflitos. Além dessa declaração em conjunto com outros países, o embaixador representante do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, Sérgio França Danese, fez uma constatação que espelha perfeitamente a essência da diplomacia brasileira diante de conflitos mundiais: durante seu pronunciamento na sessão do Conselho, o embaixador ressaltou a rejeição e a indignação brasileiras em relação à intervenção armada na Venezuela por violar a Carta das Nações Unidas e o Direito Internacional. Danese também traz em seu discurso lembranças históricas sobre os impactos negativos que o intervencionismo militar estrangeiro teve na América Latina e ressalta que este território é caracterizado pela paz e pela autodeterminação dos povos, e que deve ser mantido dessa forma.
Para entender a lógica que move a intervenção norte-americana, é preciso começar pelo subsolo. A Venezuela detém cerca de 17% das reservas conhecidas de petróleo do mundo — mais de 300 bilhões de barris, volume quase quatro vezes superior ao dos próprios Estados Unidos e maior que o da Arábia Saudita. Antes das sanções impostas por Washington, o petróleo respondia por 96% das receitas nacionais venezuelanas. Trata-se de um dos maiores prêmios geoeconômicos do hemisfério, e a intervenção deixou suas intenções às claras já nas primeiras horas. A reação dos mercados foi imediata. As ações da Chevron — única grande petrolífera estadunidense que ainda operava no país — dispararam cerca de 10% no pré-mercado após a captura de Maduro. A ConocoPhillips acumulou alta de 8,7%, e refinarias como Valero, Marathon e PBF subiram entre 5% e 16%, e empresas de serviços para campos petrolíferos — Halliburton, Baker Hughes e SLB — avançaram entre 6,6% e 9%. Wall Street, em suma, comemorou. Donald Trump foi explícito sobre seus planos: prometeu que as grandes petrolíferas estadunidenses assumiriam o controle da exploração venezuelana sem que o governo precisasse investir um centavo. Em fevereiro de 2026, o Departamento do Tesouro formalizou a estratégia com uma estratégia que facilita a exploração no país — mas com uma cláusula política reveladora: ficam excluídas empresas vinculadas à China, Rússia, Coreia do Norte, Cuba e Irã. A operação é, ao mesmo tempo, econômica e geopolítica: uma tentativa de retirar da órbita de Pequim e Moscou um dos maiores reservatórios de petróleo do planeta e reposicionar Washington como árbitro do acesso à energia venezuelana.
Analistas, porém, advertem para uma dinâmica de dois tempos: no curto prazo, a incerteza sobre a oferta tende a elevar o preço do barril; no longo prazo, o retorno irrestrito das petrolíferas estadunidenses ao mercado venezuelano aumentaria a oferta global e pressionaria os preços para baixo. O que Wall Street celebra hoje pode, paradoxalmente, corroer as margens do próprio setor que aplaude a intervenção — uma contradição que não apagou o entusiasmo dos investidores, mas que sinaliza a complexidade do que vem pela frente. Se a lógica econômica da intervenção é relativamente clara, o respaldo interno nos Estados Unidos é bem mais frágil — e isso ajuda a entender por que o protesto internacional permaneceu no plano retórico. Uma pesquisa do Pew Research Center realizada em janeiro de 2026 com mais de 8.500 adultos revelou que apenas 44% dos americanos confiam em Trump para tomar decisões acertadas sobre a Venezuela. Sobre o acesso das empresas americanas ao petróleo venezuelano — coração do projeto trumpista —, 40% se opõem e apenas 37% são favoráveis. A divisão é marcadamente partidária: 62% dos republicanos apoiam; entre os democratas, a mesma proporção rejeita. Pesquisas do YouGov realizadas logo após a captura de Maduro mostram que o aumento de aprovação à intervenção veio quase exclusivamente do eleitorado republicano. Para os democratas, a operação segue sendo contestável tanto nos fins quanto nos meios. Há, contudo, um ponto em que a opinião estadunidense converge de forma reveladora: 78% dos entrevistados afirmam que o próximo presidente da Venezuela deve ser escolhido pelos próprios venezuelanos, e apenas 6% acham que cabe ao governo dos EUA essa decisão. Apenas um quarto dos americanos aprova que Washington assuma responsabilidade direta pelo país. Trata-se de uma intervenção aplaudida por metade da população, tolerada pela outra, e cujo desdobramento político conta com pouco respaldo doméstico. Isso tem consequências diretas para a reação internacional: quando um governo age contra a vontade de boa parte de seu próprio eleitorado, o custo para aliados que optam por protestar sem romper é proporcionalmente menor. O protesto vira obrigação de princípio — exatamente o papel que os comunicados diplomáticos terminaram cumprindo.
É nesse contexto que se deve ler a reação do governo Lula — e compreender seus limites reais. O presidente condenou a operação em termos duros, classificando-a como "inaceitável" e incompatível com o direito internacional, e defendeu que, se Maduro for julgado, o processo ocorra em território venezuelano. Ofereceu mediação mais de uma vez. Não encontrou espaço: nem Washington nem Caracas abriram canais. O Brasil chegou à crise sem interlocução efetiva com nenhum dos dois lados. O ex-embaixador Rubens Ricupero, um dos mais experientes diplomatas brasileiros, foi preciso ao nomear essa condição em entrevista à Carta Capital: "Haverá um protesto, mas dentro dos limites. Elevar muito o tom não adianta, porque não vai servir para nada. Se servir, será para tornar mais difícil ainda a relação brasileira, que não é boa." A afirmação não descreve uma omissão política — descreve uma constrição estrutural. O Brasil protesta por princípio e se contém por cálculo: elevar a voz não produziria resultado algum, mas poderia custar caro numa relação bilateral que já não vai bem. Ricupero vai além e desnuda o motivo pelo qual a resposta multilateral também se revelou ilusória: o único organismo com poder efetivo para agir seria o Conselho de Segurança da ONU — onde os Estados Unidos têm direito de veto. Qualquer resolução condenatória estaria fadada ao arquivo antes de ser votada. A China protestou diplomaticamente, mas manteve o pragmatismo que orienta sua política externa, voltada para seus próprios interesses estratégicos — inclusive a pressão sobre Taiwan.
O quadro que emerge é o de uma ordem internacional que tem as palavras certas, mas não tem os mecanismos para agir quando a potência que viola as regras é justamente aquela que deveria ser contida por elas. Em paralelo, Lula sinalizou que o Brasil não aceitará imposições norte-americanas no campo dos minerais críticos, afirmando preferir negociar soberanamente a exportação desses recursos. A declaração aponta para uma tensão mais ampla: a intervenção na Venezuela não é um episódio isolado, mas o sinal de uma reconfiguração hemisférica que coloca em xeque a autonomia das economias latino-americanas ricas em recursos naturais.



Comentários