Entre cooperação e contenção: os limites da presença chinesa segundo os EUA
- 11 de mai.
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Atualizado: 14 de mai.

No dia 3 de janeiro de 2026, aviões militares americanos decolaram de 20 bases, desativaram por meios cibernéticos os sistemas de defesa aérea da Venezuela, extraíram Nicolás Maduro, algemado, de seu dormitório em Caracas, transferindo o líder venezuelano para uma prisão federal em Brooklyn numa operação que o Estado-Maior Conjunto americano batizou de "Resolução Absoluta", tornando-se a intervenção militar direta mais significativa dos Estados Unidos na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989. O gesto sinalizou, de forma inequívoca, que os Estados Unidos haviam encerrado três décadas de negligência estratégica em relação à região. Para entender por que isso aconteceu, é preciso entender o histórico americano na região.
A Revolução Cubana de 1959 inaugurou o período de maior intervencionismo americano na história da América Latina, já que Washington passou a enxergar qualquer governo de esquerda na região como vetor potencial de expansão soviética, tornando o Hemisfério Ocidental um teatro permanente da Guerra Fria. Durante a Guerra Fria, os EUA contribuíram para derrubar nove governos na década de 1960 sozinha, um a cada 13 meses, além de apoiarem o golpe militar brasileiro de 1964, o regime de Pinochet no Chile em 1973, os Contras nicaraguenses nos anos 1980 e a invasão de Granada em 1983, sendo assim evidente que a atenção americana à região era diretamente proporcional à percepção de ameaça soviética. Com o colapso da União Soviética em 1991, essa equação se inverteu, deslocando o foco de Washington para o Oriente Médio e a Ásia. A América Latina era percebida como um "território garantido" que dispensava atenção e esforços, gerando um vácuo estratégico de três décadas que a China preencheu com sistematicidade e capital.
A Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), lançada por Pequim em 2013, acelerou uma tendência que já se desenhava desde os anos 2000, visto que, em 2001, Cuba era o único país da região que comercializava mais com a China do que com os EUA. Duas décadas depois, todos os países sul-americanos, exceto Paraguai e Colômbia, faziam mais negócios com Pequim do que com Washington, transformação que não se limitou ao comércio, estendendo-se à infraestrutura portuária, às redes de telecomunicações dominadas pela Huawei e a uma presença espacial que supera, na América Latina, a de qualquer outra região fora da Ásia. O símbolo mais eloquente dessa penetração chinesa é o Porto de Chancay, no Peru, um complexo de US$ 1,3 bilhão controlado majoritariamente pela estatal chinesa COSCO, operado por caminhões autônomos monitorados a partir de Xangai, que reduziu em mais de dez dias o tempo de transporte marítimo entre a costa pacífica sul-americana e a China, tornando-se o eixo logístico de uma reorientação continental em direção a Pequim. O governo Trump respondeu com a frase que condensa com precisão a nova lógica americana para a região: "dinheiro barato chinês custa soberania."
Essa lógica encontra sua formalização na Estratégia de Segurança Nacional (ESN) de dezembro de 2025, que representa uma das formulações mais explícitas da política hemisférica norte-americana desde a Doutrina Monroe original, de 1823. O documento proclama abertamente o que chama de "Corolário de Trump à Doutrina Monroe" e não deixa dúvidas: os Estados Unidos pretendem restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental, e o principal alvo — ainda que raramente nomeado de forma direta — é a crescente presença da China na América Latina e no Caribe. A linguagem do documento é assertiva: os EUA irão "negar a competidores não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais" na região.
Para entender a urgência norte-americana, é necessário compreender a dimensão do que a China construiu na região nas últimas duas décadas: no Panamá, a pressão americana resultou na anulação judicial da concessão que a hongkonguesa CK Hutchison operava nos terminais de Balboa e Cristóbal por quase três décadas, com os terminais sendo transferidos para subsidiárias ocidentais sob contrato provisório, ao que Pequim respondeu detendo 123 embarcações em março de 2026, das quais 91 sob bandeira panamenha, tornando impossível qualquer justificativa de rotina técnica. No Chile, a simples avaliação de um cabo de fibra óptica submarino conectando Valparaíso a Hong Kong gerou restrições de visto americanas ao ministro de transportes chileno, classificando uma decisão de infraestrutura como escolha de alinhamento geopolítico. Na Costa Rica, empresas chinesas instaladas em território nicaraguense compram sedimento aurífero extraído ilegalmente do solo costarriquenho, utilizando técnicas que recuperam até 95% do ouro contido em cada saco, num esquema que o ministro da Segurança Pública Mario Zamora denunciou ao Parlamento como crime organizado transnacional com logística, financiamento e rotas estáveis.
A contra-ofensiva americana no plano econômico articula-se em torno de dois programas complementares: o Project Vault e o FORGE. O Project Vault combina US$ 10 bilhões do Export-Import Bank americano com US$ 2 bilhões em capital privado para criar uma reserva estratégica cobrindo todos os 60 minerais da lista crítica do US Geological Survey. O FORGE (Forum on Resource Geostrategic Engagement), descrito pelo secretário Marco Rubio como substituto da Parceria para a Segurança dos Minerais "com dentes mais afiados e comprometimento com velocidade", cria uma zona preferencial de comércio e investimento em minerais críticos com pisos de preço coordenados para contrabalançar a prática chinesa de exportar minerais abaixo do custo de mercado. Assim, mina-se a capacidade produtiva ocidental e aprofunda-se a dependência estrutural dos países produtores, tornando evidente que a lógica americana é disciplinar o mercado pela via tarifária onde a chinesa seduz pelo financiamento direto.
Além disso, Pequim tornou-se o principal parceiro comercial de vários países sul-americanos, incluindo Brasil, Chile, Peru e Argentina. Investiu pesadamente em infraestrutura — portos, ferrovias, usinas hidrelétricas, redes de telecomunicação — e expandiu sua presença financeira por meio de empréstimos bilaterais que, em vários casos, substituíram o financiamento multilateral tradicional dominado por Washington. A própria ESNreconhece a escala do problema ao admitir que a China "reciclou talvez 1,3 trilhão de dólares de seus superávits comerciais em empréstimos a seus parceiros comerciais" e que os EUA e seus aliados "ainda não formularam, muito menos executaram, um plano conjunto para o chamado Sul Global". É nesse contexto de relativa negligência norte-americana e avanço chinês que a política da administração Trump se insere — não como novidade, mas como aceleração e sistematização de tendências que já vinham se delineando. A resposta estratégica proposta pela ESN combina o que o documento chama de "Recrutar e expandir" — recrutar aliados regionais já existentes e expandir a rede de parceiros. O objetivo declarado é tornar os EUA "o parceiro de primeira escolha" do Hemisfério, enquanto se desincentiva a colaboração dos países latino-americanos com atores externos. Para isso, Washington prevê o uso combinado de pressão diplomática, instrumentos financeiros, acordos comerciais preferenciais, compartilhamento de tecnologia e cooperação em defesa. A ESNé explícita sobre a lógica de poder que sustenta essa abordagem: os termos dos acordos com países que dependem dos EUA "devem ser contratos de fonte única para nossas empresas", e o acesso preferencial ao mercado norte-americano será usado como alavanca para induzir escolhas geopolíticas favoráveis a Washington.
A comparação com o ICR é reveladora, uma vez que onde o Cinturão e Rota oferece capital, infraestrutura física e transferência de tecnologia em setores inteiros da economia, o FORGE e o Project Vault propõem uma arquitetura de mercado gerida pelo Estado que coordena preços e estoques em minerais específicos, ou seja, Washington responde a uma estratégia continental com um instrumento setorial, sendo assim evidente que o equivalente americano ao ICR no plano de infraestrutura ampla ainda não existe.
O CSIS, principal think tank de política externa americano, recomendou em março de 2026 que Washington anunciasse um "Pacto de Infraestrutura das Américas", com investimentos de US$ 50 a US$ 100 bilhões para portos, rodovias, redes de energia e telecomunicações, cofinanciado com Japão, Coreia do Sul, União Europeia e Banco Interamericano de Desenvolvimento, proposta que permanece no papel. A assimetria mais crítica da disputa sino-americana na região não é militar nem diplomática, mas infraestrutural, já que iniciativas americanas anteriores com o mesmo propósito, como a Parceria para Infraestrutura e Investimento Global lançada no G7 de 2022 como contrapeso direto ao ICR, não mantém sequer um site ativo hoje, garantindo que a desconfiança estrutural dos países latino-americanos em relação aos compromissos de longo prazo de Washington seja, em si, um ativo estratégico de Pequim.
A resposta americana sistêmica consolidou-se na Cúpula Escudo das Américas, realizada em março de 2026 no resort Trump National Doral em Miami, reunindo 17 países com acordos de cooperação militar, inteligência e parcerias em minerais críticos, sendo que a exclusão deliberada de Brasil, México e Colômbia sinalizou que Washington passou a interpretar a neutralidade não como postura legítima, mas como alinhamento implícito com o adversário. A China, no entanto, não recua, tanto que a BYD declarou a meta de tornar-se a maior montadora de veículos no Brasil até 2030 e a estatal Chalco fechou acordo de US$ 886 milhões para adquirir participação controladora na Companhia Brasileira de Alumínio, tornando evidente o obstáculo estrutural que Washington enfrenta: não se trata de impedir a entrada chinesa, mas de tentar reverter uma presença que já está consolidada dentro do perímetro, garantindo que a América Latina esteja definitivamente de volta ao centro da disputa entre superpotências, desta vez com um adversário que não veio de fora do Hemisfério, mas foi construído, contrato por contrato, dentro dele.
Aline Simioli e João Lucas Alves



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