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A corrida intercontinental pelas terras raras brasileiras.

  • 18 de mar.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 19 de mar.


A disputa global pelo acesso e controle de minerais críticos e de terras raras consolidou-se como um dos eixos centrais da segurança nacional e da liderança tecnológica no século XXI. Nesse contexto, países detentores de reservas significativas – como o Brasil – assumem posição estratégica na competição geopolítica protagonizada por Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia. A crescente centralidade desses recursos decorre de sua aplicação transversal em setores de alta tecnologia, defesa e transição energética, conferindo-lhes status de insumos estratégicos.

Do ponto de vista científico, as terras raras correspondem a um conjunto de 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos (do lantânio ao lutécio), acrescidos de escândio e ítrio, que frequentemente ocorrem em associações minerais semelhantes e apresentam propriedades físico-químicas correlatas.

Na economia contemporânea, esses minerais desempenham um papel indispensável na transição energética e no avanço da tecnologia. Elementos como o neodímio, o praseodímio e o disprósio são fundamentais para a fabricação de ímãs de neodímio-ferro-boro (NdFeB), amplamente reconhecidos como os mais potentes disponíveis comercialmente. Esses ímãs viabilizam a miniaturização de dispositivos eletrônicos e são componentes centrais em motores de veículos elétricos e geradores de turbinas eólicas. O érbio, por sua vez, é empregado na amplificação de sinais em cabos de fibra óptica de longa distância, sustentando assim a infraestrutura global de telecomunicações, enquanto térbio e európio são determinantes para a reprodução de cores em telas de alta definição. A ausência desses materiais comprometeria significativamente a eficiência, a portabilidade e o desempenho da tecnologia contemporânea.

A imagem apresenta amostras de diferentes elementos de terras raras — como cério, neodímio, disprósio, térbio, európio e lantânio — em suas formas metálicas.
A imagem apresenta amostras de diferentes elementos de terras raras — como cério, neodímio, disprósio, térbio, európio e lantânio — em suas formas metálicas.

Determinadas propriedades físico-químicas específicas ampliam significativamente o valor estratégico dos minerais raros. A elevada resistência do titânio à corrosão em ambientes marinhos, por exemplo, torna-o especialmente adequado para a construção de submarinos e outras estruturas navais destinadas a operar em água salgada e sob alta pressão. 

A disponibilidade de minerais críticos constitui um fator determinante para assegurar a superioridade tecnológica e a prontidão operacional. Eles têm um papel central no desenvolvimento de tecnologias avançadas de defesa, incluindo lasers, dispositivos aprimorados de detecção de radiação, monitores, estruturas aeronáuticas avançadas, bombas inteligentes, munições de ataque conjunto e ímãs, que podem ser empregados em sistemas de radar, sonar e orientação de mísseis que demandam estabilidade magnética em ambientes térmicos extremos. São insumos estratégicos e vitais para o desempenho de equipamentos utilizados para a vigilância, navegação e detecção de ameaças, sendo considerados prioridade máxima para os interesses de segurança nacional em todo o mundo. 

No atual cenário geopolítico, é evidente que a disputa pelas terras raras brasileiras se relaciona com a capacitação militar que sua utilização promove. A intensificação de conflitos mundiais torna urgente o desenvolvimento das tecnologias de ataque e defesa por parte dos Estados, e a busca por materiais que tornem o arsenal de cada país superior aos demais é inevitável em um contexto de caos e insegurança generalizados. Além disso, a dinâmica de desconfiança mútua leva os países ao fortalecimento de relações e alianças estratégicas entre si, que lhes permitam um grau de segurança maior devido aos recursos que o aliado dispõe e à sua capacidade de proteção recíproca. Nesse panorama, o Brasil emerge como elemento indispensável à “corrida armamentista” recente por dispôr da segunda maior reserva dos requisitados minerais raros, que permitem, entre outros benefícios, a evolução do poderio militar e a superioridade da tecnologia avançada dos demais Estados.

A geopolítica contemporânea é fortemente influenciada pela vulnerabilidade das cadeias globais dos minerais em questão. A China ocupa posição predominante, detendo aproximadamente 40% das reservas e 90% da capacidade global de refino desses suprimentos. Tal concentração confere a Pequim significativo poder de influência econômica, inclusive mediante restrições de exportação. Em resposta, os Estados Unidos e a União Europeia têm adotado estratégias voltadas à diversificação de fornecedores, ao estímulo à produção doméstica e à constituição de estoques estratégicos, com o objetivo de mitigar riscos associados à dependência externa em setores críticos, fortalecendo parcerias com economias consideradas politicamente alinhadas e promovendo maior autonomia no que se refere a esses recursos. Nesse cenário de crescente “instrumentalização” estratégica dos recursos naturais, o Brasil surge como ator relevante e entra no radar de investidores e nações estrangeiras, em virtude da sua capacidade de fornecer seus minerais raros.

O interesse norte-americano em investir no mercado brasileiro de mineração dessas terras reflete sua busca por independência em relação à obtenção de recursos fornecidos pela China, ação justificada pelo contexto mundial de guerra comercial e busca por soberania tecnológica e aprimoramento militar. A continuidade de uma ligação direta a um Estado concorrente seria considerada uma ação turva e pouco estratégica, especialmente no que diz respeito à obtenção de recursos tão cruciais para o desenvolvimento militar e econômico. Nesse sentido, através do Projeto Vault  anunciado pelo presidente norte-americano Donald Trump e que visa criar uma reserva estratégica de minerais raros , os Estados Unidos da América forneceram um empréstimo de US$565 milhões em financiamento para a Serra Verde, única mineradora brasileira de terras raras, e tal investimento conferiu ao país norte-americano uma participação como sócio minoritário da empresa e expandiu seu acesso às terras brasileiras.

Os acordos do Brasil com a União Europeia, por sua vez, são mais iniciantes, apesar do interesse em cooperação já ter sido expressado. O objetivo final da União é a independência estratégica, ou seja, tornar doméstica sua obtenção de minerais raros e desenvolver sua própria indústria de refinaria, e o mercado brasileiro serve como um instrumento para a diminuição da dependência das terras chinesas. Sob essa luz, os aportes financeiros nos minerais raros brasileiros por parte da União Europeia  devem atingir US$2,4 bilhões entre 2026 e 2030 e devem, inclusive, ser direcionados para o desenvolvimento da infraestrutura brasileira de refinamento, o que insere ainda mais o Brasil no cenário geopolítico internacional. Ademais, a presidente da Comissão da União, Ursula Von der Leyen, destacou a posição central que os acordos acerca do fornecimento dos minerais brasileiros irão desempenhar na cooperação entre o Brasil e a União Europeia: "Isso [a exploração de terras raras] é essencial para a nossa transição digital e limpa. E também para nossa independência estratégica em um mundo onde minerais tendem a se tornar um instrumento de coerção".

Acima à esquerda: o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado do presidente da China, Xi Jinping. Ao centro: o presidente do Brasil cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. À direita: o presidente brasileiro aparece ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, diante de bandeiras que representam China, Estados Unidos e União Europeia
Acima à esquerda: o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado do presidente da China, Xi Jinping. Ao centro: o presidente do Brasil cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. À direita: o presidente brasileiro aparece ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, diante de bandeiras que representam China, Estados Unidos e União Europeia

A disputa pelas terras raras entre os países citados inaugura um período de investimentos na indústria mineradora do Brasil e em seu mercado como um todo, visto que foi o subdesenvolvimento da infraestrutura que impediu que as ricas reservas fossem devidamente exploradas e permanecessem praticamente intocadas. Além disso, dado seu potencial geológico reconhecido, o país pode se tornar um ator-chave nesse setor, a nível mundial.

A China também tem adotado uma estratégia assertiva e de longo prazo para assegurar acesso às reservas brasileiras, conferindo ao Brasil posição focal na disputa geopolítica global e ampliando seu poder de barganha econômica. A atuação chinesa no território brasileiro pode ser comparada à lógica estratégica do jogo chinês de Go, caracterizada pela ocupação gradual de posições-chave com horizonte temporal de décadas, visando consolidar vantagens estruturais na cadeia global de suprimentos minerais.

Observa-se, nesse contexto, um aumento expressivo dos investimentos chineses no país. Em 2024, os subsídios provenientes de Pequim registraram crescimento de 113%, totalizando US$4,18 bilhões, o que posicionou o Brasil como o terceiro principal destino global de capital chinês. A estratégia também se manifesta no foco direcionado aos minerais críticos associados à transição energética e à indústria de alta tecnologia. Empresas chinesas têm adquirido diretamente direitos minerários e ativos estratégicos. A BYD, por exemplo, adquiriu lotes ricos em lítio no estado de Minas Gerais, enquanto a MMG incorporou ativos de níquel anteriormente pertencentes à Anglo American. Além disso, o capital chinês tem ampliado sua presença em segmentos ligados ao nióbio, tântalo e estanho, minerais essenciais para aplicações industriais avançadas.

Outro eixo relevante da estratégia consiste no controle da infraestrutura logística, elemento crucial para o escoamento e a inserção internacional das commodities. A Cofco International e a China Merchants Port controlam terminais estratégicos nos portos de Santos e Paranaguá, respectivamente, assegurando influência sobre etapas decisivas da cadeia exportadora. Diferentemente de empresas ocidentais, frequentemente pressionadas por resultados trimestrais, as estatais chinesas operam sob planejamento centralizado e diretrizes estratégicas de longo prazo, o que lhes permite absorver perdas conjunturais para alcançar metas estruturais vinculadas à soberania tecnológica.

A conjuntura internacional também cria uma janela de oportunidade para a reconfiguração do   perfil produtivo brasileiro. Em vez de limitar-se à exportação de matéria-prima bruta, cujo valor agregado é relativamente baixo, o país pode avançar na produção de óxidos separados e ímãs permanentes de terras raras, cujo valor por quilo é substancialmente superior. Essa mudança estrutural permitiria capturar maior parcela da renda mineral, estimular a inovação tecnológica e gerar empregos qualificados.

Nesse sentido, as iniciativas estadunidenses, europeias e chinesas no setor de minerais críticos catalisaram uma resposta das potências estrangeiras  e elevaram o Brasil à condição de parceiro estratégico indispensável na economia tecnológica e energética contemporânea. Vale ressaltar que, para cimentar essa posição e evitar a reprimarização da pauta exportadora, faz-se necessária a formulação e implementação de uma Política Nacional de Minerais Críticos, orientada à agregação de valor, à autonomia econômica e à inserção soberana nas cadeias globais de alta tecnologia.

Em síntese, o interesse em investimentos em projetos de mineração e processamento de terras raras no Brasil servirá para estimular o desenvolvimento da indústria doméstica brasileira e fortalecer sua posição no mercado global. A centralidade do uso das terras raras para as indústrias militar e tecnológica torna fundamental a cooperação internacional em relação ao Brasil e consolida sua posição geopolítica no cenário atual. A intensa atração de investimentos insere o país em relacionamentos interestatais valorosos e concede influência sobre os termos dos acordos respectivos, o que resulta na expansão de sua esfera de poder global.  Escrito por : Mariana Sofia Rolim Canuto e Maria Clara Gueiros Lavor Fidelis


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Equipe:
Coordenador e Editor do Projeto:

Dr. Ielbo M. Lobo de Souza

Alunos participantes:

Aline Simioli Campos

Anna Paula Wiendl

Evelin A. Mwanyika

Felipe Ribeiro Silva

Guilherme M. Cucco

João Lucas Pereira

Maria Clara Gueiros L. Fidelis

Mariana Sofia R. Canuto

Mariana Tanouss de M. Moreira

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